Encontrava-me no escritório, o dia mal tinha começado mas já corria muito bem, até que vi uma enorme sombra que me tapava a claridade da janela, aproximando-se cada vez mais. De repente vi uma luz forte e tudo recomeçou...
Caminhava apressadamente, stressada, ansiosa, para ir aquela entrevista. Nem a tumultosa multidão daquelas enormes e incabáveis ruas me faziam deixar de pensar na minha apresentação, naquela entrevista, a minha primeira entrevista para o meu primeiro emprego.
Cheguei a firma de associados em advocacia mais cedo do que era esperada. A secretária pediu que eu esperasse numa sala. Eu não parava quieta,os minutos não passavam, e aquele "tictaquear" do relogio na parede primaveril daquela sala fazia com que me enervasse mais. O meu coração batia depressa como se fosse uma locomotiva e o estomago estava coladinho as costas, já não conseguia distinguir o que era o quê. A secretária chamou-me:
- Doutora Carolina Freitas pode entrar.
Aquele " doutora" ecoou na minha cabeça e como se estivesse hipotizada, levantei-me e entrei na sala. Quando saí, estava com um sorriso colado, o meu coração parecia a batida de um baterista drogado de uma banda metálica qualquer. Queria gritar ao mundo "consegui". Não me lembrava de nada do que tinha dito ou me disseram, mas que importa?! tinha conseguido.
Quando entrei no elevador, vislumbrei um jovem muito bem parecido. O meu entusiasmo era tanto que resolvi compartilhar com ele a minha alegria, beijando-o. Não conhecia aquele estranho, mas senti naquele momento que era capaz de conquistar o mundo. E não arrependo nada daquela atitude pouco usual.
Passado três meses, eu e o tal rapaz encontravamo-nos sob a nave da igreja para dizermos o sim perante as nossas famílias e amigos. Ele era luso-brasileiro, filho de pais brasileiros, mas nascido em Bragança. O nome do meu Apolo era Roberto Pasquim e era doutorado em marketing. Foi amor ao primeiro beijo. Tinhamo-nos casado, não como constava no nosso grupo de amigos por eu estar grávida, mas sim porque ele tinha recebido uma proposta de trabalho numa grande empresa em Nova Iorque. "E porque não??" pensei eu quando ele me deu a novidade. Eu sempre sonhei conhecer a Big Apple. E assim fomos para a nossa eterna lua-de-mel como os nossos pais chorosos e já saudosos quiseram denominar.
Chegamos por fim ao nosso destino. A empresa Carter & Charlton, que o tinha contratado, tinham providenciado tudo, até uma magnifica casa nos suburbios, para que nos sentissemos mais seguros, como se isso fosse possível! Tudo corria bem para o Roberto no trabalho, enquanto eu ficava sozinha em casa todo o dia, pintando, escrevendo. Era pouco para mim, não me sentia completa, precisava de mais atenção.
Certo dia, Roberto, adoentado, chegou a casa e deparou-se comigo na cama com o nosso vizinho Jason. Foi um grande choque para ele, como seria para mim se estivesse na pele dele. Saí para a rua semi-nua, fui até ao seu carro, onde chorava como uma criança. Tentei explicar o inexplicável, sem qualquer resultado. Ele decidiu afastar-se de mim. Só o deixei partir depois dele prometer que não cometeria nenhuma loucura.
O tempo que estivemos separados, três semanas, foi bom para perceber o que sentia. Amava-o como nunca amei ninguém, sentia a sua falta, queria-o de volta. Como pude ser tão vil com uma pessoa bondosa como ele? Não sei, mas não podia voltar atrás. Contudo podia ainda lutar pelo seu amor.
Decidi então ir ao seu trabalho, tentar resolver as coisas, mas ele tinha saído para almoçar. A sua secretária disse-me onde o poderia encontrar. Eu sai a correr, ansiosa, sem saber o que fazer ou dizer, só sabia que não podia continuar sem o seu perdão. Finalmente encontrei-o no jardim, um pouco abatido e enrugado, comendo um cachorro. A sua primeira impressão quando me viu foi se levantar e ir embora, mas eu interpus-me no seu caminho. Falamos. Ele contou-me a traição o tinha magoado muito, pois tinha-se lembrado das discussões dos seus pais. Quando discutiam, o seu pai dizia que a sua mãe o tinha traído e que ele era filho de um português, já que tinha sido concebido quando a sua mãe trabalhava para ganhar a vida num bar. Também Roberto não aguentaria pensar que os seus futuros filhos, pudessem não ser dele. Não conseguia viver com a dúvida, pois quem traí uma vez, pode muita vez trair outra.
As minhas lagrimas rolavam-me no rosto, e eu pensava como pude magoá-lo. Depois daquela história, das suas palavras sentidas e sofridas, percebi que ele não queria mais nada comigo, e eu percebi bem o porquê. Quando ele me diz :
- amo-te mais do que tudo na minha vida. Desde que me beijaste, tornaste-te no ar que respiro, alimentas a minha alma, és tudo para mim. Eu prometo esquecer se tu prometeres nunca mais cair em tentação, eu morreria se isso voltasse acontecer. Prometes?
O meu coração queria sair pela boca, não conseguia articular qualquer palavra, quanto mais prometo. A alegria era tanta, os seus olhos tristes a olhar para mim a espera de uma resposta e eu só consegui dizer "sim". Esta resposta traria muita mudança na minha vida. Ouvi os sinos tocarem, os passáros que se encontravam na vizinhança voaram com o badalar, nós agarramo-nos e beijamo-nos como se não houvesse mais ninguem no mundo.
No dia seguinte, resolvi procurar emprego. Não queria estar sozinha em casa,onde poderia surgir pensamentos que me poderiam deitar a perder todo o seu amor. Os amigos de Roberto conheciam uma empresa de investimentos que estavam a precisar de uma advogada. Os donos eram portugueses, e mal me entrevistaram, contrataram-me logo. Fiquei felicissima.
A nossa vida corria bem, estavamos os dois satisfeitos com os nossos empregos, amavamo-nos. Tudo era perfeito. Decidimos que estava na hora de tentaramos ser pais, mas com a minha vida atarefada, a correr sempre de um lado para o outro, não conseguia engravidar. Roberto sempre foi um grande apoio, muito paciente, animando-me quando chorava porque estava menstruada, dizendo-me sempre fica para a próxima, que tinhamos tempo.
No trabalho tudo corria ás mil maravilhas, a clientela crescia a olhos vistos. Tinha clientes de várias nacionalidades. Todos elogiavam-me pela minha simpatia, pulso e eficácia.
Um dia, quando o johnson estava de férias, surgiu um cliente seu, pedindo para o ajudar, pois tinha que fechar a compra de uma propriedade o mais rápido possivel. Como johnson não estava, podia ser mais um futuro cliente para mim, porque não ajudá-lo? Fizemos um pré-acordo de compra para que o dono da propriedade não vendesse a mais ninguém, enquanto Sebastian, o nome do cliente porto-riquenho do johnson, esperava pelo aval do banco para o empréstimo. Até com o banco o ajudei. Os nossos encontros começaram a tornar-se cada vez mais usuais, já que o empréstimo nunca mais saia, e eu tinha que sossegar o proprietário do imóvel. Sempre que me ia encontrar com Sebastian, sentia uma ansiedade estranha, que não conseguia explicar o porquê. O seu belo aspecto, o seu ar sério tornavam-no num homem misterioso, o que atraia.
Finalmente assinamos o contrato e a propriedade passou para as mãos de Sebastian. Para comemorar fomos beber um vinho ao meu escritório. Quando começou a surgir um ambiente diferente. Os seus olhos pareciam que me despiam quando olhava para ele, imaginava as suas mãos fortes segurando e acariciando o meu corpo, aquele ambiente estava a deixar-me louca. Até que ele se aproximou e beijou-me o pescoço. As suas mãos percorreram o meu corpo que estremecia a sua passagem, os nossos corpos quentes pareciam dois vulcões prontos a entrar em erupção, os seus lábios húmidos, beijavam-me. Encostou-me a parede, e quando estavamos em extâse ouvi sinos.
Era impossível ouvir sinos ali, ainda para mais eram 8h50. Notei que algo estava errado. Lembrei-me da promessa, dos sinos, olhei pela janela e comecei a ver tudo a ficar escuro. Deus estava-me a castigar por faltar a promessa feita. As trevas estavam a instalar-se na minha vida, pensei eu. Não! Era apenas um avião, que se dirigia ao meu escritório, no 83º andar do World Trade Center.
1 comentário:
Só demonstra o quão difícil é manter uma promessa e que nem sempre o facto de ficar sozinho em casa é a justificação para uma traição. O ambiente de trabalho e de acção também o pode ser. E como na maioria dos casos, as promessas não são cumpridas. Realmente parece que há aqui algum castigo divino, embora não o seja. É a ira dos homens que chegou a este ponto. Muito bem planado o conto. Parabéns.
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